Depois de terem feito o trabalho de casa na investigação da música de dança, os DAFT PUNK atiraram-se à descoberta da sua sensibilidade pop. "DISCOVERY", o segundo álbum da dupla francesa, faz 20 anos e continua a honrar o apelo de "One More Time": "celebrate and dance so free".

Poucas semanas após o anúncio da separação do projecto de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, é altura de celebrar o aniversário de um disco que levou mais além o impacto e popularidade já alcançados com "Homework" (1997), estreia decisiva para que se falasse de um "french touch" na música electrónica francesa dos anos 90. A par dos Air, os DAFT PUNK foram os maiores embaixadores dessa vaga e os que melhor souberam construir um percurso que aliou fama global e aplauso crítico (mesmo que nem sempre consensual). E "DISCOVERY" garantiu que a memória da obra da dupla não se esgotasse num antecessor de referência enquanto apontou numa direcção inesperada.
Editado dentro de portas a 26 de Fevereiro e internacionalmente a 12 de Março de 2001, foi o álbum que levou a música dos dois produtores a outros públicos, partindo de um alinhamento sem complexos em tentar chegar ao maior número de ouvintes e não apenas a um nicho atento às movimentações na pista de dança. Um single de apresentação como "One More Time" lembrava mais "Believe", de Cher, êxito ubíquo surgido três anos antes, do que os singles ou tesouros escondidos de "Homework". O recurso ao autotune não terá sido alheio à semelhança, com o processamento vocal desse tema a manter-se num disco fiel à tradição de vozes robóticas de uma dupla que nesta fase pôs os icónicos capacetes pela primeira vez - e não os tiraria ao longo da carreira.
Mais melódico do que "Homework", mais interessado em explorar o formato canção e sem nada tão agreste como "Rollin' & Scratchin'" ou "Rock'n Roll" no alinhamento, "DISCOVERY" teve inspiração directa nos tempos de infância dos seus autores, entre os anos 70 e 80, e na música, séries e filmes que os rodeavam nessa altura. O ponto de partida foi mesmo tentar reproduzir, ou pelo menos homenagear, a inocência e sentido lúdico de um olhar imune a ditames do suposto bom gosto, com o prazer puro e imediato a submeter-se a rótulos ou juízos de valor.
Hoje considerado um clássico, "One More Time" preparou os fãs para um disco de que provavelmente não estariam à espera e deixou suspeitas de cedência comercial. Mas o resultado mostrou-se mais versátil do que o antecessor e até com um alinhamento mais equilibrado. A celebração de "DISCOVERY" quase nunca esmorece ao longo de uma hora e 14 faixas que cruzam heranças house, disco, electrofunk, r&b, new wave ou até rock FM (alguns riffs de guitarra parecem pilhados aos Def Leppard ou Van Halen), numa festa que, ao contrário da estreia, inclui convidados: os norte-americanos DJ Sneak, Romanthony e Todd Edwards, três dos heróis musicais da dupla.

Leiji Matsumoto, outro ídolo de Homem-Christo e Bangalter, também se revelou decisivo nesta fase. O artista japonês que criou "Space Pirate Captain Harlock", uma das sagas manga que marcaram a dupla, participou na produção de "Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem", anime que narrou uma aventura espacial ao som das canções de "DISCOVERY" - e da qual saíram os videoclips de todos os singles do álbum. O filme levou mais longe a viagem à infância em moldes retrofuturistas e ainda é dos contributos mais fortes dos DAFT PUNK para a memória colectiva, afirmando-os como uma banda particularmente hábil na aliança de música e imagem (um espectáculo como o da digressão Alive 2007 elevaria a parada, alguns anos depois, ao ajudar a que os DJs ganhassem estatuto de estrelas rock).
Além de ter sido o primeiro single, "One More Time" garante uma entrada no álbum pela porta grande, numa sucessão de êxitos que inclui a guitarrada do instrumental "Aerodynamic", a falsa ingenuidade da synth-pop de "Digital Love" ou o portento assente em vocoders "Harder, Better, Faster, Stronger", cuja popularidade disparou quando foi samplado por Kanye West em "Stronger", já em 2007. Da segunda metade do alinhamento, a maior pérola será "Veridis Quo", que dispensa a voz e é a canção mais melancólica, a sugerir que os DAFT PUNK já reconheciam o legado euro disco do italiano Giorgio Moroder antes do tributo assumido de "Giorgio by Moroder", faixa do quarto álbum, "Random Access Memories" (2013).
Outro raro episódio contemplativo, "Something About Us" visita territórios próximos daqueles que os Air explorariam no mesmo ano, em "10 000 Hz Legend" (mais um segundo álbum a propor algo completamente diferente), enquanto acalma os ânimos despertados por "Crescendolls", "Superheroes" ou "High Life". E nesses e noutros temas, "DISCOVERY" abriu caminho para uma nova geração de música electrónica dançável francesa (e uma geração internacional EDM a seguir), dos Justice a Vitalic, de SebastiAn aos Digitalism ou ainda à banda sonora de "Drive - Risco Duplo" (2011), assinada por Kavinsky, que talvez não tivesse existido sem a música que acompanhou "Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem". Nada mal para o que começou como um acesso de nostalgia...